domingo, 16 de setembro de 2012

Desculpas, você.



"Por algum motivo, começo a rabiscar aquela palavra no alto da página. 
Desculpe. 
Desculpe
É uma palavra que assombra e machuca. 
Parece pedir perdão por estar na página. 
É uma palavra tão clara quanto esquiva.
Escrevo em volta dela. Tecendo e riscando. 
Dou-lhe história e diálogo. 
Dou-lhe nomes e lugares. Dou-lhe fôlego e voz. 
Minha redação é veloz e bagunçada. 
Mordo o interior da boca e mal noto quando sinto o gosto de sangue.
E se torna claro para mim que aquela é uma palavra boa, usada por pessoas boas. 
Ninguém é verdadeiramente virtuoso, ninguém evita a maldição rastejante. 
Todos os personagens, em todas as histórias, pelejam entre o bem e o mal, entre o certo e o errado. Mas são as pessoas boas que sabem diferenciar, que sabem quando ultrapassam a linha. 
E é um gesto difícil e humilde aceitar a culpa e admitir a falta. 
É preciso ser corajoso para dizer essa palavra e falar sério.
Desculpe.
Desculpe.
"Desculpe" significa que você sente o latejar da dor do outro, como também sua própria dor, e que você assume parte dela. Portanto, isso nos une, nos assemelha. "Desculpe" é uma porção de coisas. É um buraco preenchido. Uma dívida paga. 
"Desculpe" é  o acordar do delito. 
É a onda mutilada das consequências. 
"Desculpe" é tristeza, assim como saber é tristeza. "Desculpe", às vezes, é autopiedade. 
Mas "Desculpe", realmente, não é sobre você. 
Cabe a eles pegar ou largar.
"Desculpe" significa se abrir, para ser abraçado, ridicularizado ou vingado. 
"Desculpe é uma pergunta que implora o perdão, porque o metrônomo de um coração bom não se acomodará até as coisas se tornarem certas e verdadeiras. 
"Desculpe" não aceita coisas velhas, mas as empurra adiante. 
Faz uma ponte sobre a lacuna. 
"Desculpe" é sacramento. 
É uma oferenda. 
Uma dádiva.
Sim. "Desculpe" é quando pessoas boas se sentem mal."


O Segredo de Jasper Jones
Craig Silvey - p. 191-192


 O livro é lindo e eu quero ser amiga do Charles Bucktin.

Obrigada àqueles que não desistem de mim.