domingo, 21 de agosto de 2011

É que o que nos atormenta, não nos dominou. Nossa beleza acaricia suave nossa dor, e nosso rímel é sempre a prova d´água.






Gisele, sou uma mulher que não cola.

Gisele me disse surpresa que nunca havia visto alguém que, mesmo tão triste, por fora conseguia se manter razoável.

_Nunca vi alguém deprimida conseguir se manter assim, bonita.

Vocês percebem que Gisele só dá aos feios o direito a dor. Então expliquei para Gisele, o que sei, ela já sabia, é que nada do que sou do lado de cá, combina com o que sou do lado de lá.

Eu sou alguém que não cola Gisele, por mais que eu tente, não dá. Você tem razão, a parte de fora não cola com a parte de dentro. Quem vê de longe não tem a mais vaga idéia das alegrias e dos tormentos que correm nas veias.

Meu corpo, fragmento desconectado da minha maternidade. Minha baixa estatura é oposta aos altos incêndios que me consomem, e minha ternura não combina com meus ódios homicidas.´

Meu puritanismo ridículo é totalmente contrário aos meus impulso de sedução.

Minha paralisia de anciã que deseja a morte, não cola nos frenéticos movimentos que faço em direção a vida. Um pedaço caseiro de quase esquecer o mundo, o outro forasteiro, ama a estrada.

De um contradição ingênua, nenhuma das minhas partes cola na outra.

Mas se você me olhar bem no fundo, Gisele, na escuridão dos meus grandes olhos, verá minha tristeza. A mesma que vejo nos teus.

Como eu, tu também és assombrada pelas tuas tristezas, e mesmo assim te mantens toda arrumada, toda bonita. Tu e teus olhos verdes.

É que o que nos atormenta, não nos dominou. Nossa beleza acaricia suave nossa dor, e nosso rímel é sempre a prova d´água.

Gisele, vamos brindar , por que mesmo tristes somos felizes...



 Andréa Beheregaray