terça-feira, 23 de novembro de 2010

Desencontros

Tenho sentido o estúpido prazer de saber que não fiz o que pude...
 Mas essa serenidade não equivale a qualquer comodismo ...

Ainda preciso das minhas mudanças, dos meus desencontros, de um pouco de nonsense para encher a barriga e não levar o dia-a-dia tão a sério...
Ainda acredito que só cai quem se deixa levar. E penso muito – o dia inteiro – nas inúmeras possibilidades de tornar a vida mais doce.

É nisso que tenho me baseado.

Então não adule nem critique. Amores vêm e vão com o tempo, a distância, os contratempos que a vida impõe.

Se deixei de cultivar o que vinha chamando de decepção, não o fiz por querer. Aliás, em qualquer outra situação, teria lutado muito mais…

Simplesmente desisti de lutar... Mas hoje, no entanto, vejo que poderia, sim, ter feito mais... Aguentado mais, talvez... Tolerado, entendido, compreendido com o coração, e não com esse cérebro que não para de bombar juízos, princípios, valores.

E todos os valores, quando há amor de fato, são furados...
Veja bem: não há tradição que resista a um afeto bem-dirigido... Por mais que a pessoa seja presunçosa, extremamente ligada ao material, seguidora de outras crenças... Sim, senhores. Por mais que tenha bafo, seja ignorante ou cometa lá seus pequenos delitos...

Pois aprendi com a vida e com a do que a presunção também me guia...
Da mesma maneira, gosto de tudo o que há de melhor e sigo crenças que aos outros soam até mesmo patéticas...
 Defeitos, meus corações, todos nós temos. ..Se tentamos mudá-los ou não, pouco importa.
 Mas importa, e muito, que aceitemos os dos outros e estejamos abertos para, quem sabe um dia, amá-los pelo que são.

Franciscana pra caralho?    Foda-se.

Em Closer, a Natalie Portman tem uma fala que resume muito bem tudo isso. Ela diz que sempre há o momento da escolha... O momento em que você deve optar por algo que afetará os outros para o bem ou para o mal.
E entre ser amarga e crédula, ainda pendo mais para a segunda opção...

 Sim, sou porra-louquíssima...
Desde a infância..
Bebo como um profissional do álcool, fumo além do permitido por qualquer organização ligada à saúde, cometo gafes diárias...
 Abro caminhos para que se apaixonem por mim e melhorem minha autoestima, e sofro para depois dar um “toco” nas pessoas sem ter de ofendê-las... Também tenho TOC-muito-TOC e, assim como qualquer pessoa de ascendência italiana verdadeira, faço chantagens emocionais baratas, morro de ciúme de qualquer coisa que considere minha, sei a diferença entre penne e parafuso e tempero tudo – absolutamente tudo – que vai à boca.

Mas, para sobreviver a tanta loucura, mudei e sei mudar como ninguém...
 Não suporto molho vermelho...
Aaprendi a lidar com empregos que não me dariam nada além de grana no final do mês e  modéstia, vá tomar no cu – sou gente pra dar e vender...
Sei ouvir, me interessar, ajudar.
Não pela obrigação tacanha do “caminho reto da fé cristã”, mas por sentir amor pelas pessoas.

E é por todas essas coisas (e por inúmeras outras que não cabem aqui) que não aceito ser julgada... Nem como a falsa santa, nem como a louca de todas as horas.

Sim, tenho medos e angústias que corroeriam qualquer pessoa despreparada. Mas acontece que aprendi a lidar com isso, com meus limites, com minhas aflições.. .
Sei que não são poucas as pessoas que me consideram covarde, mas também tenho plena ciência de que covardia, para mim, é algo muito mais complexo...
 É algo que está entre o banal e o sagrado (e aqui não existe qualquer oposição) e que, por isso mesmo, deve ser respeitado. Covardia é foda. Dói na carne   Vc é COVARDE ...P CARALHO...SEMPRE FOI....



E é justamente por isso que não abro mão da minha porra-louquice...
Do meu espírito franciscano...
Como diria a Glória Horta
(e eu adoraria ter escrito isso…)

“Agora tragam-me ferros em brasas e marquem meu corpo que eu estou forte. Estabeleçam lei e eu as transgredirei todas.
E determinem padrões que eu os romperei.
Cortem minha cabeça. Eu sobreviverei apenas com o coração” .

 E é justamente sobre isso que escrevo agora...
Sobre o limite entre o que dou, o que ofereço (que é bem diferente de dar) e o que não entrego nunca... Outra vez, ao contrário do que muitos pensam, repito: sou a pessoa mais fácil do mundo quando o assunto é amar. Amar sem medo, que fique claro.... Como amamos e nos condoemos com o mendigo da próxima esquina...
 Mas também sei ser a mais espinhosa das pessoas quando noto que essa minha bondade inata, e não a construída pelo tal do cristianismo, é ferida.


E é justamente por isso, e não pela minha intransferível e intransponível fé, que luto... Pois acredito, sim, em um mundo em que ao menos as pessoas próximas a mim vivam sem tantas amarras e culpas...
 Melhor: que vivam sem tantas verdades.


Pois será a partir daí, e somente a partir daí, que seguiremos apenas com o coração.

(Peço perdão desde já a todos que não leram as entrelinhas e só viram em tudo isso um post  enlouquecido. Não, realmente não é para vocês que escrevo agora)

Jogo a toalha ...

The end.