terça-feira, 8 de maio de 2012

Sem dizer Adeus


Estamos todos assim pendentes, perdidos, com um certo desequilíbrio, tentando o desapego, mas ele não quer ir embora.
Falamos tanto de você, e não é a esmo,  tem profundidade, tem emoção, tem ternura, e tem muita saudade.
Sentada no portão da casa de baixo, passei a noite toda olhando para as escadas da casa verde um pouco acima da rua, e me vi ali há 15 anos atrás, sentada, o Sultão ao meu lado, meus amigos sentados no chão, você lá na varanda fumando, meu pai deitado no sofá, meus irmãos na pracinha...

Lembrei de quando eu chegava da escola e tirava a saia ainda na rua e ia correndo jogar vôlei, ficava com a bermuda de baixo e a blusa da escola e te ouvia gritar pra eu ir comer e lá pelas 22 hrs eu entrava e reclamava que a noite era curta.
As raras vezes em que  você me pedia alguma  coisa eu respondia que era pra esperar anoitecer, porque eu só gostava de sair a noite na rua.
Eu vi minha irmã tão perdida, eu vi meu irmão sozinho, eu vi meu pai tentando sobreviver, e me vi ali igualzinha a todos eles, ainda sofrendo, ainda apegada.
Hoje é o aniversário da mana. E ela está doente, de cama e sei exatamente tudo o que está passando por sua cabeça. O fato de você não estar aqui, o fato dela não poder levantar e armar aquela festa, com bastante comidas e bagunças. Tentei ajudá-la, tentei explicar que o dia hoje é só um dia e que poderíamos comemorar depois, desde que ela se comprometa em melhorar. Mas, você a conhece né mãe? Nada racional ou madura. Fazendo 42 anos e se comportando como se tivesse 19 ainda. Eu entendo. Ela vibra com essa coisa de festas e aniversários. Como podemos ser tão diferentes?

E porque mesmo você não está aqui? Ao menos hoje, ao menos pra ela. Esse seria o presente que eu queria lhe entregar. O seu sorriso ali ao lado dela.
Só quem te conheceu entende o que eu não aceito hoje, entende o fato de você ser tão essencial, imprescindível...A mulher mais forte que eu ja´conheci, a mulher que conseguia tudo, que transformava tudo que conhecia de tudo, a mulher mais cheirosa, elegante, vaidosa que já vi.
Minha irmã tá tão triste mãe, tão desorientada, e eu não sei o que fazer.Porque ela ficou ali e ali não tem mais Você.
Belo trabalho você fez mãe, deixou esse gene da emoção conosco, gene esse que eu tento desprezar mas que me pega assim de surpresa, na curva no beco, na esquina as escondidas.
Essa sua intensidade, esse seu amor incondicional por tudo e todos.
Eu atropelei a minha vida, a vida inteira, lembra que o meu apelido era twister?
Então mãe, hoje desacelerei e foi a partir do momento que eu te perdi foi quando eu sentei e chorei e entendi tanta coisa.
Queria a casa  cheia novamente, queria chegar, gritar mãe diante do portão e você vir lá do fundo do quintal da minha infância, abrir o portão, me dar um beijo, um abraço e começar a falar incansavelmente até me cansar e, mesmo assim, continuaria.
Às vezes eu acho que ao passar por aquela porta, se eu desejar muito, com muita força, conseguirei voltar para tempos tão distantes, cronológica e mentalmente, voltarei a ver aquele quintal grande, imenso, que depois, quando cresci, se tornou pequeno.
Às vezes eu acho que se eu dormir vou acordar do lado da tua cama, daquela cama antiga, com aquela novelas engraçadas que eu adorava implicar antes de dormir; eu realmente acredito que estaremos todos ali, naquele quarto que tinha o teu cheiro.
Às vezes eu acredito que aquela casa vai, um dia, voltar a ser o que era antes, copa, café, bolinho de chuva. Você fazendo hum hum hum do seu jeito tão particular .
 Eu sempre soube que dentre todas as manias do mundo era essa que me faria lembrar de você por toda a vida.
Às vezes eu acredito que se eu ficar aqui, quieta, pedindo, você ainda estará lá, sorrindo, feliz e bem.
 Às vezes eu acredito, e me dói acreditar.


Hoje a sua tonca faz aniversário e por hoje eu quero acreditar e fazê-la crer que logo, logo vamos nos ver. Todos nós.


O meu amor é seu.